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Do Amazonas para os EUA: botas sustentáveis que encantam Texas

Do Amazonas para os EUA: botas sustentáveis que encantam Texas

O mercado de peles do pirarucu se destaca como uma fonte surpreendente de renda e sustentabilidade na Amazônia. O pirarucu, conhecido como um dos maiores peixes de água doce do mundo, virou sinônimo de luxo internacional devido às suas escamas em formato de diamante, tão valorizadas na confecção de botas de caubói nos Estados Unidos. Essa combinação entre moda e natureza não só move a economia local, mas também ajuda na preservação da espécie e no sustento de inúmeras famílias ribeirinhas na região.

A Economia Sustentável por Trás do Couro do Pirarucu

Embora a carne do pirarucu (Arapaima gigas) constitua a principal fonte alimentar, a comercialização de sua pele é fundamental para garantir a viabilidade do manejo sustentável. Uma pele de pirarucu pode pesar, em média, 10 quilos, atingindo preços entre R$ 170 e R$ 200 no mercado. Esse valor é crucial para incentivar os pescadores locais, que recebem R$ 10 por quilo de carne, além de cobrir custos de logística e processamento em áreas remotas da Amazônia.

Ciência e Tradição: Recuperação da Espécie

Após ter sido levada à beira da extinção na década de 1970, o pirarucu está recuperando suas populações graças a planos de manejo que combinam ciência agropecuária e sabedoria tradicional. Somente 30% dos peixes adultos são capturados, enquanto 70% permanecem seguros para reprodução. A contagem dos pirarucus é feita por pescadores, que observam os exemplares subindo à superfície para respirar, um método que teve a validação de pesquisadores. O sucesso é evidente: hoje existem mais de 1,2 milhão de pirarucus em áreas de manejo reguladas.

Desafios e Desigualdade na Cadeia de Valor

O que se esconde por trás do glamour das botas de peles de pirarucu é uma realidade marcada por trabalho duro e vigilância constante. As comunidades locais enfrentam desafios significativos, como a pesca ilegal, e têm que patrulhar suas águas com pouco apoio. Enquanto um pescador ribeirinho pode ganhar de R$ 600 a R$ 4.000 por temporada, produtos de moda feitos com pele de pirarucu atingem preços superiores a R$ 6.000. Frigoríficos que atuam como intermediários retêm a maior parte do lucro. Para reverter essa situação, organizações comunitárias, como a Asproc em Carauari, buscam implementar suas próprias operações de processamento para vender diretamente aos consumidores e garantir uma fatia maior dos lucros da cadeia produtiva.

Créditos: reportagem original de Jenny Gonzales/ Mongabay