Manaus – O quadro crítico da saúde pública em Manaus revela um cenário desesperador para aqueles que necessitam de atendimento médico imediato. Usuários da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) José Rodrigues, localizada na zona Norte, compartilham uma rotina de frustração, gastos inesperados e falta de suporte.
A equipe do Portal CM7 Brasil acompanhou o sofrimento de diversos pacientes que, ao buscar socorro na UPA, enfrentaram a suspensão de serviços e foram forçados a se deslocar para outras unidades de saúde na cidade.
Pacientes em busca de atendimento
Um relato que exemplifica a gravidade da situação é o de um homem que buscava atendimento para a drenagem de um furúnculo na coxa. Impedido de trabalhar devido às dores, ele passou por uma verdadeira odisséia em busca de ajuda médica.
Antes de chegar à zona Norte, ele já tinha tentado atendimento no SPA do Coroado, onde foi informado sobre a suspensão do procedimento. Em seguida, foi ao SPA do Galileia, que afirmou não ter cirurgião disponível, e ainda passou pelo SPA Danilo Corrêa. Ao finalmente chegar à UPA José Rodrigues, enfrentou a mesma situação de falta de atendimento.
“Estou gastando dinheiro para ir de lugar em lugar, um dinheiro que eu nem posso ficar gastando muito. Estou desempregado, tentando resolver esse problema para justamente começar a trabalhar direito. Sem saúde, realmente a gente não faz nada”, desabafou o paciente.
Deslocamentos sem solução
Outro caso é o de uma jovem que sofreu um acidente de moto e necessitava de um exame de raio-X no joelho. Após tentar atendimento no SPA Danilo Corrêa, ela foi orientada a se deslocar para a UPA José Rodrigues. Ao chegar lá, foi informada de que a falta de profissionais impossibilitava o procedimento, e lhe recomendaram que buscasse uma terceira unidade, que ficava no bairro da Redenção.
A paciente também criticou o atendimento na recepção, afirmando:
“A gente se desloca de local em local, gastando dinheiro com Uber, e chega aqui e é tratada com ignorância, com desrespeito. Só vão jogando o pessoal para outras unidades.”
Funcionários chegaram a dizer que a direção da unidade havia anúnciado que, devido à escassez de profissionais, não haveria mais atendimentos naquele dia.
Causas da crise na saúde pública
A triagem na UPA José Rodrigues agora prioriza apenas os casos considerados de extrema urgência, como picos de pressão alta e crises de diabetes. Pacientes com outras condições, como problemas intestinais, são orientados a retornarem para casa sem atendimento.
A justificativa para essas restrições nos atendimentos está relacionada à infraestrutura precária e às condições de trabalho dos profissionais de saúde. Funcionários relataram aos pacientes que enfrentam um atraso significativo nos salários, que pode chegar a até oito meses, o que gera um clima insustentável de trabalho.
A usuária Cristina, que acompanhava sua filha, revelou o que ouviu de um dos funcionários da unidade:
“A gente tem que ter solidariedade com os médicos, porque quem trabalha quer receber. Você ficar oito meses sem receber, meu amor, não tem quem aguente. E não é culpa deles estar nessa situação, nem dos atendentes, que estão fazendo o que podem”, pontuou.
Faltam recursos nas unidades de saúde
A crise vivida na UPA José Rodrigues não é um caso isolado. Durante visitas a outras unidades de urgência, como a UPA do Coroado, os usuários relataram um desabastecimento crítico de insumos essenciais.
Nessa unidade, médicos e enfermeiros estão improvisando “cotinhas” para comprar itens básicos do cotidiano hospitalar, como máscaras de proteção e dipirona, para administrá-los aos pacientes internados.
Enquanto o impasse financeiro e administrativo persiste, os corredores das unidades de pronto atendimento em Manaus seguem superlotados, revelando um profundo descompasso entre a proposta de serviço de saúde e a dura realidade enfrentada pelos pacientes que aguardam atendimento.
